Contos Paulistanos: Ensaio sobre o Xaveco
Xaveco: s.masc. – cortejo contemporâneo, cantada, linguajar regional originário da cidade de São Paulo.
Um sábado qualquer, nada de novo. Reunião com um grande amigo de eras que estava acompanhado de sua digníssima em uma casa de rock/bebida numa noite levemente fria e chuvosa. Nada demais. Ele me apresenta sua amiga, segundo ele, brilhante, e seus tios gays. Como eu dissera… Nada de novo.
Com o tempo, o pessoal resolveu ir para caminhos diferentes. Claro que tinha meus caprichos e resolvi sair com a recém-conhecida amiga. Mais claro ainda é que os tios dela vieram juntos. Estava pagando pra ver o que aconteceria. Um dos tios resolveu colocar Madonna no rádio do carro e brincou de entrevistador comigo. Entrei na brincadeira inocente sem maiores riscos e fomos rindo até uma outra “balada” chamada D-Edge, próximo da estação Barra Funda.
Aos incautos que não conhecem a noite paulistana, D-Edge é uma noitada GLS e, aos que me perguntam por que raios eu fui numa noitada dessas, posso dizer que essas noitadas são mais divertidas do que as héteros em São Paulo. Ao menos, até então, era regra para mim.
Sabe quando você recebe uma voadora estilo Zangief no meio do peito? Essa era a sensação ao entrar na D-Edge. Os LED’s representando as barras de volumes eram as grandes atrações do local… Ah, os R$50 só pra entrar também. Engraçado como as pessoas amam se enganar e querem por que querem ver que o rei está usando a roupa invisível que só os mais espertos podem ver. Bem, voltemos ao conto.
Peguei minha dose de uísque caubói em meu ápice ébrio. Coragem líquida a descer pela minha jugular para tentar uma coisa com aquela mulher. Até ver que ela era lindamente esquisita perdida na miríade de seus próprios demônios. Era melhor ficar distante. Mal apareceu esse pensamento em minhas sinapses decepcionadas, surge um dos tios dela (o mesmo que me “entrevistou”. Conversamos sobre desde quando a conheço até que o papo tomou um rumo bem esquisito:
- Qual a tua mulher ideal? O que te atrai?
- Primeiro, mulher tem que ser inteligente. Não tenho medo desse tipo de mulher como os outros homens. Mulher pra mim tem que ser simpática, carinhosa, companheira, bonita, não ser ciumenta-maluca. Mas que tenha inteligência e saiba conversar, pois na velhice é a única coisa que resta.
- hahahhahaha. Mas diga, se você não encontrar essa mulher, você pensou em outra alternativa? – pergunta ele, numa tentativa insinuante. O olhar, assim como a linguagem corporal, mudou. Até mesmo o aroma saindo dele ficou diferente.
Silêncio de um segundo com o olhar gázeo.
- Sim, claro.
- É? E qual é? – fica animado
- Mulher burra de bunda bem feita. – Arrematei.
Silêncio que precedeu gargalhadas homéricas da parte dele. Após alguns minutos, eu surtei com o ambiente pesado da D-Edge e saí. Esperei até três da manhã para o metrô voltar a funcionar, pegar o ônibus e enfim, chegar em meu antigo covil. Mesmo com todo o desespero momentâneo e a decepção com o sexo oposto, eu só conseguia pensar em uma coisa: “saí de uma cantada de um gay like a boss”.
Como eu dissera, nada de novo.



Rapaz, uma palavra define.
FATALITY.
Sem mais.